sábado, outubro 15, 2016

MALUCA SOU EU

Ela me lembra hoje, à distância, Anne Hathaway, em muitos momentos de O Diabo Veste Prada. Era bem branquinha, cabelão com franja quase cobrindo os olhos negros e profundos, boca enorme que, no entanto, pronunciava as palavras com delicadeza. Chamava-se Lygia, vinha de Niterói para dar aulas no grupo escolar onde eu fiz o primário.
Uma professora inesquecível, sem dúvida! Desde o primeiro dia de aula, me encantou. Muito jovem, não tinha mais de 25 anos, temperamento forte apesar da palidez da pele, e ainda por cima envolta na névoa de quem vinha da cidade. Descia todas as manhãs no ponto de ônibus em frente à minha casa, subia com graça a ladeirinha rumo à escola.
O dia ainda escutava os últimos agudos dos galos madrugadores enquanto eu, muito menina, já de pé, lavava o rosto, vestia o uniforme, tentava acertar o laço de fita azul marinho que fechava a blusinha branca. Minha mãe dormia sem culpas porque, embora eu fosse a filha única da casa, nunca me deu maiores regalias. Eu que me virasse por conta própria.
Meu pai, nessas horas, levantava comigo e me preparava um café, nada de breakfast, café puro, cheiroso e quente, que dava energia para a manhã que vinha pela frente, até a hora da merenda. Eu subia afoita a ladeirinha, chegava quando já se ouvia o hino no pátio. A criançada enfileirada e sonolenta não entendia nadinha do que cantava.
Me posicionava nos primeiros lugares da fila, era uma das menores, não via a hora de entrar e estudar – confesso, eu gostava daquilo! As aulas de Dona Lygia (era assim que a chamávamos, cheias de admiração e respeito) eram boas de ouvir e de ver. Acho que minhas amigas não percebiam tanto, eu já tinha lá essa mania de olhar o mundo com poesia.
Quando a aula acabava, minha estratégia era ficar enrolando para descer com ela a ladeira. Queria estar mais próxima, quase como se fosse amiga íntima daquela pessoa que admirava tanto. Um dia, levei minha boneca para escola e desci falante ao lado da professora. Com ela ia outra moça, as duas falavam com muitos gestos, do que falavam?
Foi então que ela fez umas caretas e trejeitos, dançou, deu uns pulinhos e a amiga riu. Ingenuamente resolvi mostrar minha presença e entrar no assunto. Fiz o comentário infeliz: – Ih, Dona Lygia, parece uma maluca! Ela não gostou, ficou vermelha, me cobriu de um esporro tão vergonhoso, que não consegui dizer mais palavra alguma.
Entrei silenciosa em minha casa, fui para o meu quartinho, abracei minha boneca (coisas que eram minhas, sem resistência e sem reservas) e chorei até dormir, sem vontade de almoçar. Desde então, Dona Lygia quebrara o encanto, não era mais a minha professora querida porque não podia compreender que maluca não era desrespeito, era elogio!



terça-feira, julho 12, 2016

O FOLCLORE

Era miúdo, muito branco, com uma cabeleira farta da cor castanha, chegada para o claro, que ajeitava com gumex em um topete de responsa, escalando para o alto da cabeça. Muito gabola, sempre engomadinho e aprumado, guardava na pele baça uma ferrugem; era primo da minha mãe, e a parte dele na família conseguia ser ainda mais pobre que a nossa.

Viviam todos num casebre de tijolo aparente e telha canal, lá pelos lados da vila, cedido pelo fazendeiro bonachão, que ocultava a fortuna por trás de uma autoridade simples e popular. Família numerosa, a mãe jovem, dedicada e viúva, distribuía os filhos nos afazeres da fazenda; acreditava pagar com a moeda do trabalho a morada e outras pequenas regalias.

O primo arrumadinho, nos seus devaneios juvenis, parecia não se dar conta do abismo que havia entre ele e a filha do fazendeiro; ignorante das leis sociais, tomou-se de amores pela moça. Ela, estudada e gentil, bela e contida, tratava o rapaz com amizade e respeito, no que ele, apaixonado e confuso, viu, talvez, uma chance de lhe abrir o coração.

Era noite de lua clara, e o luar de tão branco acentuava o amarelo da lâmpada fraca na varanda da fazenda; noite bonita, escolheu as mais belas palavras do seu vocabulário sofrível. Mais belas e mais sonoras, mais pomposas e impactantes, palavras emolduradas num tom de voz que julgou adequado à circunstância, embora formal para uma declaração:

– Queria dizer que te amo, mas quem sou eu para você, logo eu, um simples larápio!

A moça não conteve a sonora gargalhada que ecoou nos pastos, respingou na dignidade do nosso atabalhoado primo, mas deixou um pouco mais rico o cruel folclore da família.

domingo, junho 05, 2016

ERA UMA VEZ UMA HISTÓRIA

Era uma noite escura, muito escura, tão escura que o mundo parecia que nunca mais veria a luz. Naquela vila esquecida, a mulher que tinha um coração estranho e sonhos confusos, abraços de longos braços que abarcavam o que não podia sustentar, sofria debruçada na janela. Não sei que pensamentos tinham feito antes a mulher branca de olhos negros abraçar a filha, colocá-la no berço bem ao lado da sua cama, na casa de pau-a-pique, chão de cimento cru e telhas de barro, que das frestas se viam as estrelas, caso a noite não fosse um breu.
Nesse quarto, nessa casa sua, vivia a mulher com seu homem, que lhe dera uma filha morena de olhos grandes; vivia um amor e o resto de incertezas, tantas e tão fortes que nem mesmo os búzios, sequer as cartas, o pai de santo, nada, ninguém poderia antever o futuro. Era aquele pouco e era tudo que tinha a mulher noturna, da brancura da lua, dos olhos de noite profunda; um quarto rodeado de paredes nuas, uma cama e um berço. Ela, uma filha e o homem que amava. E dois olhos de olhar lá fora, tudo no espelho da escuridão.
Naquela noite, porém, as coisas não andaram bem; e sobre a cabeça dessa mulher pairou uma tempestade, imóvel no olho do furacão, a espiral do redemoinho sugava, expelia motivos e brigou à exaustão com o homem que amava, brigou com aquele incerto futuro. Doeu feito um punhal em brasa, doeu duas vezes, de sangrar e de arder, de ferida e cauterização; doeu também pela menina magrela de olhos grandes, que ressonava no berço; doeu pela casa que não teria, pelo pesadelo e doeu pelo sonho de um lar.
Doía tanto que precisava respirar grande, respirar com os pulmões abertos e fome de ar, de mais ar. Era perto da meia noite quando escancarou a janela e sorveu o ar infestado do cheiro de jaca, era dezembro, e a jaqueira frondosa, dona do terreiro, fruteou como nunca! Chorou quase aos guinchos, sofria e chorava. Estava só, sob um imenso céu de ônix, debruçada na janela com vista para o nada. E aí o pior aconteceu, por detrás do tronco largo da árvore, da espessura da noite, surgiu a criatura miúda, de precisos saltos e olhos de fogo.
Veio rapidamente em sua direção, o que era aquilo? De que fundo sem fundo da imaginação, de que olhos afogados de medo e lágrimas, de que certezas abstratas surgiu? As pernas faltaram, o pavor veio aos braços, um grito perdido no labirinto da noite. Bateu com força a folha da janela contra a moldura. E girou a tramela, largando-se sobre a cama. No baque a menina acordou. Abraçaram-se e permaneceram juntas por alguns minutos, por um tempo incerto, por um repertório de histórias, por muitos e muitos anos, até o dia em que o inevitável as separou.



sábado, maio 28, 2016

MEU ENCONTRO COM SARAMAGO

Lá estava o livro sobre a bancada do armário, no lugar onde todas as noites apanho a leitura corrente, aquela que estou fazendo para atenuar as durezas do dia-a-dia. Sugeriu-me discretamente que vencesse a resistência, empreendendo a leitura do Saramago.
Não que, por qualquer motivo, eu não gostasse do autor, mas achava um texto intrincado demais, difícil de atravessar, quase um labirinto ou um quebra-cabeças de palavras, que precisava de concentração e vigília constantes para encontrar a saída, isto é, o sentido. Como não tenho tido nem uma nem outra coisa tão facilmente (a cabeça sempre perdida em misteriosas esferas cotidianas), vinha adiando o encontro com o escritor português.
Nessa noite, o livro nas mãos como única opção, decidi ceder. Fui rodeando o objeto físico e prevendo o encontro, apalpando e sentindo a textura do papel, cheirando e ganhando intimidade. Comecei pelo título, a capa, o prefácio, a dedicatória, a orelha e o posfácio. De repente, deparo comigo já no final da primeira página! Lá estava eu, vertiginosa e segura, mergulhando n’As Pequenas Memórias do menino que precedeu o escritor.
Logo de saída entendi e gostei do recado na epígrafe: "Deixa-te levar pela criança que foste" (O Livro Dos Conselhos). Foram páginas e páginas de encantamento e poesia. Algumas paradas para deixar a inundação na lagoa dos olhos escoar e retomar o foco. Muitas lembranças e uma vontade enorme de falar eu mesma das minhas escondidas, tão pequenas e fugidias memórias. Da criança que, quase como se estivesse em uma outra vida, eu mesma fui algum dia.
Decerto, Saramago aguçou minhas lembranças e meus sentidos. Relâmpagos fugiam do esquecimento, cruzando o céu carregado de meu passado.
Gostaria que quando fosse cair todo esse temporal, que caísse daquela forma singela e franca, como faz o autor. Pode ser qualquer dia desses, histórias que falem das duas classes que dividem o mundo – os velhos e as crianças –, da mãe de uma garotinha morena sob uma jaqueira enorme, protegendo e ameaçando o ponto do ônibus, de uma noite escura e um saci inusitado, narrativas que se recomponham dentro de mim, e abram caminho, e busquem rumo.
Duvidosa, sempre, de qualquer exatidão, já que a memória, como nos mostra Saramago, é sempre imprecisa e esquiva.  "Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido ator inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados..." – diz o escritor.

Duvidosa, sim, imprecisa e esquiva, mas minha.

segunda-feira, setembro 28, 2015

ELA NÃO VAI VOLTAR

O cheiro é muito bom! Avança pelas narinas num looping de alucinar. Memória acionada, traz um bife na manteiga, as férias no Rio de Janeiro, o apartamento no andar muito alto, acima das nuvens. Era a casa dos patrões da minha tia. A pele ganhava uma camada extra de gordura, a alma se deixa provocar na valsa das lembranças.
Tinha eu meus onze, doze anos, e uma leveza de sonhos e descobertas. Fui parar naquela casa, cujos habitantes comiam bife na manteiga, onde coisas diferentes sempre aconteciam. Na nossa casa, distante dali, nunca faltou carne, quase sempre da criação que vovó mantinha no quintal: galinha, pato, porco, e quando nada, um ovo.
Às vezes um exótico jacaré, que o vizinho caçava e repartia com os amigos. Mas carne de vaca, mesmo, era coisa rara e muito cara. Na manteiga então! Comíamos em qualquer lugar. Naquela casa, não, comíamos na cozinha, eu e minha tia, silenciosas e solidárias. Era um desperdício não poder desbravar aquele belo e imenso apartamento.
Mas eu obedecia, quando os patrões estavam em casa, por respeito à minha tia. Quando eles saíam, aí sim, a curiosidade me levava pelos ambientes decorados e cheirosos. Era tudo muito refinado, tão diferente da minha casinha distante, do meu quarto simples, mas nem por isso menos limpo, tão diferente daquilo tudo. Eu gostava dos dois.
Na casa viviam um casal de meia idade e sua filha, que regulava idade comigo. A ideia inicial era que fossemos brincar, nas nossas férias. Mas algumas peculiaridades acentuavam o abismo entre nós. A menina era gorducha, quase obesa para a idade, mimada, acostumada a ver desejos realizados; eu talvez fosse menos má do que me sinto hoje.
Ela nada sabia da dureza da vida. Eu tinha um corpinho magro e pequeno, moldado nos recursos fitness da vida na roça: pique-bandeira, amarelinha, corda, árvores. Tornei-me o tormento da gordinha; que, por revanche, me tratava como uma boneca pobre e indesejada, que ela fazia questão de torcer, judiar, submeter ao martírio. 
Combinávamos de pentear os cabelos uma da outra: ela manipulava a escova com violência, espetando a cabeça e arrancando meus fios longos muito negros. Na minha ingenuidade, acho que eu sabia me livrar dela. Mais do que isso, creio que entendia as razões dela, sobretudo quando nos levavam para passear.
Íamos a algumas lojas bem chiques, caríssimas! Lá compraram muito, como se necessitassem preencher o vazio daquele grande corpinho de menina. Na época, a moda era estampa de estrelinhas, e muitas, infinitas estrelinhas desfilavam pelo céu dos meus olhos desejosos. Nada para mim, tudo para a menina, no maior número da loja.
Essa era a minha vingança! Quando, de outra vez, fomos à praia – Copacabana, sempre tão bacana! –, aquilo tudo me consumiu o crédito de carma: a vontade de rir só de vê-la socada num maiozinho desajeitado e feio, eu arrasando num biquíni desgastado e roto, cobrindo, porém, um corpo lépido, fagueiro e moreno.
Claro que a brincadeira preferida dela, naquele instante, foi tentar me afogar, saltando sobre meus ombros. Mas eu sempre escapulia e me salvava ao final. Alguma coisa me suga para dentro e fora das lembranças. Ah, sim, o bife sobre a mesa, os olhos úmidos. Outro dia, no cinema, me encontrei na tela. Sabia bem do que tratava o filme.
Aplaudi com força no final! Minha tia não está mais aqui, e eu sei que não adiantaria perguntar, afinal, que horas ela volta?

quarta-feira, outubro 29, 2014

SERIA EU?

Encontrei Maria Vitória durante uma caminhada pelas ruas do meu bairro. Vestia jeans, camiseta vermelha, dois olhos vivos sobre olheiras profundas e uma lisa e negra cabeleira que se agitava ao vento. Entregava panfletos numa esquina junto a outros jovens, carregando bandeiras e adesivos de uma candidata à presidência do país. Parei, puxei assunto e ela sorriu, falante, logo me convenceu a colar um botton de sua candidata na blusa.
Engrenamos uma animada conversa, parecíamos velhas amigas. Ela me contou, em palavras nada breves, que era filha de um político, desses tradicionais, à moda antiga, mas um homem honrado e trabalhador, prestativo por convicção, que morreu pobre e foi enterrado sem pompa no cemiteriozinho do lugar. Tinha orgulho do seu passado, vereador por vinte anos num tempo em que não havia salários, pequeno orgulho que ele fazia questão de ostentar.
Além é claro, dos ternos, – ah, os ternos! (e aí ela se empolgou!). – Como ele adorava os ternos! Não tinha muitos nem eram caros, mas impecáveis e completos, bem passados e concluídos por gravatas de laços rigorosos. Pagos em muitas parcelas módicas nas lojas quase chiques da sede, como se dizia do primeiro distrito do município. Outra paixão eram os carros, mas nunca os tivera muito caros – a vida andava difícil!
Enquanto falava do pai os olhos brilhavam como uma negra noite de muitas estrelas pulsantes. Era jovem, cheia de sonhos e, estranhamente, também de saudades. Perguntei mais sobre ele, sobre suas posições e ideologias, suas escolhas políticas... – Ideologia? Sabe, ele gostava mesmo é de ajudar, fazer favor sem esperar retorno (que o reconhecimento naturalmente traduziria em votos). Tinha verdadeira obsessão por resolver problemas.
– Trabalhara por longos anos como motorista de uma velha raposa de direita, tipo reaça e conservador. Com ele aprendera coisas questionáveis, é bem verdade, guardadas em silencioso respeito, por mim e por ele. No fundo, no fundo, o mesmo sangue dele corria em mim e me falava a verdade: queríamos que todos vivessem bem, que tivessem os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Mas ele aprendera um discurso verde, de oliva, não de esperança, exatamente.
Os braços dela giravam inquietos enquanto falava, os olhos arregalavam a cada emoção, senti alguma familiaridade com aquilo. Nem precisou pedir para que prosseguisse... Certa vez, ele pedira que ela votasse em um candidato seu, para federal. Movida pelo coração, não teve coragem de negar, mas adiantou que votaria no Lula para presidente. Acordo selado! Passada a votação, o velho cacique do local fora conferir o voto dela: claro, riram juntos um da esperteza do outro...
Um certo senso de honestidade os unia mais. Creio que se eu quisesse ela ficaria ali contando sua história por muito mais tempo, de sua admiração e amor pelo pai, reacionário mas bom e humano, que acordava na madrugada para levar mulheres parindo ao hospital, para comprar o caixão que sepultaria uma velhinha sem recursos, trazido na mala do velho aero-willis, com ela cheia de pavor, menina ainda, sentadinha no banco de trás.
Eu precisava seguir, ela talvez precisasse de fôlego para continuar... Continuar o que, mesmo? Nos despedimos, com a certeza de que nos veríamos em breve, tomara que na comemoração da vitória de nossa candidata comum. La vai ela, lépida e cheia de esperança, com sua cota de panfletos e saudade na mochila. Tive a certeza de que ela permaneceria ali, contando sua história, talvez para sempre. Pensando bem, talvez ela ainda esteja contando sua história por aí.
Ela dobrava a esquina quando a vi pela última vez. Não sei porque, corri em sua direção, tentei alcançá-la, mas foi em vão. Ela tinha se perdido na escuridão, mas dentro de mim, um sentimento forte, uma dúvida inquietante, uma silenciosa e intermitente pergunta: – Maria Vitória... seria eu?


sexta-feira, novembro 09, 2012

O DOCE CHEGA MAIS RÁPIDO

1º Ato – A estufa

Um cacho de bananas amadurecia lentamente, dia após dia, lá no fundo do quintal. Observava seu amarelar progressivo e silencioso. Sabia que meu olhar para aquilo, e para tantas outras coisas daquela família, era diferente, embora não soubesse explicar por quê.

Meu avô materno era posseiro e usava umas terras devolutas, de onde tirava o sustento da família numerosa. Plantava o pão no quintal e, de poços mal cavados na argila, trazia o peixe e a rã, além da água salobra que nos tirava a sede.

Éramos tão felizes! Um bando alegre inventando a vida plena de enxadas, ancinhos, foices e martelos, a pregar as tábuas distraídas na porta da morada.

Eu via tudo, guardava tudo nem sei bem aonde, talvez num recanto fugidio da memória que hoje acende e apaga, como os vagalumes nas noites calorentas lá da vila, envolvendo a criançada suada brincando de pique-bandeira até cansar.

Meu avô tinha um esconderijo estranho, coberto de folhas secas e caixas de papelão. Um dia quis desvendar aquilo e descobri que eram bananas, ocultas e muitas, espremidas e acinzentadas, esperando um fim. Perguntei do que se tratava e me disseram que era uma estufa.

2º Ato – O telefonema

Ela me ligou, dizendo que disse coisas a ele. Disse muitas coisas, e continuou dizendo, dizendo. Eu ouvia em silêncio. Achei, ao final, que ela tinha falado demais. Argumentei calmamente, como quem toca uma pétala da própria vida, para não ferir sua delicadeza. Ela ainda é jovem demais!

De fato, viveu muito, tateou momentos intensos, saboreou amarguras tais que lhe trazem essa certeza de inabalável sabedoria. Ele procurava apenas uma namorada. Ela aconselhava, dizia coisas, espalhando confiança, construindo muros e definindo estratégias de ataque e recuo, prontinha para uma nova guerra.

Cavaleira armada até os dentes contra moinhos às vezes tão inofensivos!

3º Ato – A prova

Lá estava a bananeira, com seu cacho simétrico e gomos amarelando, despertando a gula dos pássaros e da família. Voltei à estufa numa manhã. Precisava de respostas. Distinguia as bananas da estufa das bananas do cacho, que eram nossas. Esperávamos por elas do mesmo modo que os cajás, as jacas e os abacaxis, o tempo que fosse preciso.

Fiz perguntas e pedi uma daquelas bananas que dormia abafada ali, sob um lençol de trapos. Amarelava à força, mostrava-se madura. Comi como quem observa a mastigação. Ouvi a pergunta irritada daquele tio meio impaciente, nem aí para tudo o que um coração inquieto sentia naquela família: “Tá doce?”

Eu ainda sentia o travor da fruta esmagada entre os dentes, subindo pelas gengivas. Respondi: “Tá, mas é diferente!” E ele prontamente me respondeu: “É que o doce, nessa, chega mais rápido.”

Epílogo – De bananas & meninas

Desliguei o celular e humildemente fiquei pensando. Primeiro nela e no que me disse, na singeleza das suas respostas, na voz trêmula quando colocada contra a parede. Senti pena! Eu precisava dizer o que disse? Daquele recanto fugidio da memória que hoje acende e apaga foi emergindo uma lembrança muito clara, muito presente, com cheiro, cor e espanto!

Até que tudo se misturou, bananas e meninas, dissolvidas na acidez da vida. Meu coração deu saltos e se esparramou pelos quatro cantos da casa. Compreendi que algumas meninas aprendem as coisas da vida antes de seu tempo, como as bananas na estufa. É verdade, amadurecem depressa.

Na moça como na fruta, a adstringência, o travor e a cica são os mesmos, quando o doce chega mais rápido.